sábado, 24 de maio de 2008

Eu!

Quero rir das vossas caras caricatas. As mesmas caras que eu vejo na TV. As caras impunes, vencidas pela monotonia da rotina planejada. Quem vos acorda é o despertador? Eu me levanto com o ruído dos personagens dos meus sonhos. Sim, eu sonho. E nos meus sonhos não existe espaço para as palavras baratas, compradas ou alugadas que saem cuspidas de bocas mercantis. Minhas propagandas estão no meu riso irônico, nos ambientes que desprezo, dos comentários que dispenso e da antipatia que lanço àqueles que experimento e não encontro sabor. Gosto de devorar as pessoas e perceber o tempero que elas tem a me oferecer. Ultimamente minha língua adaptou-se ao insosso. Quero rir pela certeza da inveja que provoco naqueles que procuram o otimismo improvável do dia-dia. Meu riso para os que se sentem superiores, para os metódicos que não entendem que alguns nascem para contrariar as leis e regras, mesmo que elas sejam estúpidas e banais. Meu gingado e musicalidade para os usuários de blazers. Minha androgenia para machos e fêmeas que se limitam na seleção natural dos imbecis. Meu grito irritante nos ouvidos dos que povoam espaços cercados por arames ideológicos. Saio pela rua como louco e como louco rodopio pelas palavras, pelas imagens fotografadas dos outdoors e pelos papéis sujos do jornal. Sou filho do Verbo. Irmão dos pronomes possessivos. Sou a conjugação exata do presente do indicativo. Sou mais, sou o futuro imperfeito dos sujeitos que teimam em se ocultar.


Saulo de Tasso Russo Barreto

quarta-feira, 14 de maio de 2008

A casa e o lixo

Essa casa é grande demais para mim. Ela não me cabe. Foi construída para ter uma vida própria. As janelas gritam palavrões. As portas me ingnoram. Todos os outros cômodos interagem e fingem não me ver. Essa casa não é minha. Não sei como vim morar aqui. Os quadros desenham o incoveniente dos meus passos. As lâmpadas se apagam quando passo. Minha respiração provoca o vômito nas torneiras. Pela manhã, os fogões se acendem. A noite, a geladeira escancara sua porta. Os colchões me comprimem quando deito. A mesa resmunga numa língua que eu não entendo. A porta principal está aberta. Ela dá para um corredor claro onde o infinito se mistura com as possibilidades escuras do meu medo. As vezes ouço uma voz dizer que a culpa é minha. Reconheço um pouco de mim nos tijolos sobrepostos e na tinta amarela das paredes. As paredes são neutras e isso me faz desconfiar delas. O chuveiro derrama lágrimas de ódio. O ralo consola-o dizendo que eu não demorarei a ir embora. Quando o relógio da parede emite um ruído informando que são cinco horas da tarde, o interfone toca. Toca três vezes. Atendo e não escuto nada. As flores dos vazos passam o dia falando mexericos. As garrafas d´águas sempre se lamentam. As panelas se envolvem em brigas com os garfos, colheres e facas. De tudo, sinto um ar de cordialidade do lixeiro. Não me aproximo muito. O lixo me sorri gratuitamente. O mal cheiro dele não me incomoda. As moscas que nele pousam parecem ser suas amigas. Sinto vontade de falar com o lixo e todas as suas imundices. O lixo deve estar apaixonado. Já vi rascunhos de carta de amor com ele. Vi também uma foto, mas não identifiquei de quem era a imagem. O lixo da minha casa, se é que é minha casa, fica solitário num canto abandonado. O lixo é tratado como um coitado. Mas ele não liga. Me incomoda quando a casa me ingnora. O lixo não. Vive sorridente. Não existe tempo mal para ele. Sempre recebe as escórias, mas nunca perde o bom humor. Talvez se me unir ao lixo supere o resto da casa. Talvez não. É dificíl viver como o lixo. Mais difícil ainda é transpor aquela porta aberta. Admiro o lixo. Mas nãoq uero uma total aproximação. Um dia quero ser um lixo. Um lixo humano só, numa casa que me tortura por suas intolerâncias.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

OVERDOSE

Dei minha cara à tapa. Fui lá, chinguei, pisei, gritei e soltei todo o sarcasmo acumulado de dias de insônia. Não tive a mínima paciência que me pediram para ter. Falei tudo o que devia. Passei na cara as dívidas, os erros, as mágoas. Rasguei a tua roupa. Rasguei a minha roupa. Ouvi palavrões, gritos, sussurros. Ouvi a máquina de escrever da delegacia. Ouvi o delegado. Ouvi o choro da minha mãe no telefone. Nada disso me acalmou. Cheguei em casa e tomei o litro do uísque. Quebrei o copo no chão da sala. Peguei um caco de vidro e cortei a minha pele que transpiarava rancor, ódio. A TV exibia um filme de amor. Soltei uns dois ou três palavrões e corri para o banheiro. Vomitei todo o meu espírito. Joguei para fora tudo o que em mim prestava. O mundo ganhou um inimigo. A partir de hoje as minhas palavras serão destinada àqueles que por um motivo foi vítima da cobrança para serem mais humanos. A partir desse instante, as pessoas não vão passar de indivíduos reduzidos em suas verminoses. Lutarei contra o uso dos bactericidas. Quero que a raça humana volte a sua condição de microorganismo. Não sei bem ao certo o motivo que me levou a ser tudo isso. Nem sei bem ao certo o que sou: anjo, demônio, homem, mulher, criança. Apenas me recordo do seu rosto calmo, e suas palavras saindo de sua boca e entrando no meu ouvido. Do meu ouvido, as suas palavras desceram pelo vasos sanguíneos e chegaram no meu sistema digestório. Essas palvras foram degradadas pelo meu ácido clorídrico. Foram trasnformadas em escremento. A última coisa que ainda aparece nas bolhas de minha memória foi o teu adeus sem lágrimas e a minha esperança em prantos.

Saulo de Tasso Russo Barreto

terça-feira, 29 de abril de 2008

Eterna saudade

Não havia muitas pessoas no seu enterro. Os familiares preferiram fazer-se presente com uma coroa de cravos e uma faixa branca, onde se podia ler: "eternas saudades". Os choros derramados e as velas acesas eram de suas companheiras de trabalho, ou melhor, suas amigas. Suas amigas, quase irmãs, que acompanharam os desafios do dia-a-dia da sua profissão. Distante, perto da lápide de uma dama da sociedade, o cafetão jogava suas pragas na falecida. Ela morreu devendo uma quantia considerável. Não se conformava de ter pedido de uma só vez a melhor de "suas" meninas e o dinheiro que ela devia por anos de serviços prestados.

Sua morte ainda era um mistério. Tinha sido encontrada nua e esfaqueada no quarto de um motel. Seu caso estava sendo investigado pelas autoridades. Pelo menos é o que dizia o delegado do Departamento de Polícia, um dos suspeitos pelo crime.

A última pessoa a deixar o cemitério foi uma moça alta, magra, de olhos esbugalhados que vestia um vestido preto bordado com rendas. Essa moça chorava muito. Não se conformava de ver sua companheira de apartamento deitada num caixão barato. "Ela sempre deitou-se nas melhores camas da cidade". Agora, estava deitada sem nenhum companheiro ao lado, estava sozinha. "Pelo menos está deitada com a mais pura das companhias, as flores. Vai com Deus, amiga".

Aos poucos, pingos de chuva começaram a cair. O coveiro decidiu cobrir o caixão com uma lona para só no dia seguinte enterrar de uma vez aquela vítima de um dos crimes mais chocantes da pacata cidade. O cemitério estava com um cheiro forte. Um aroma de vazio. O vazio de corpos sem almas. E os vermes, esbanjando vitalidade, já começavam a rondar a nova carne.

Logo a chuva parou. Já era madrugada. Do cheiro de morte podia-se sentir um outro mais apurado. Esse outro cheiro vinha detrás de uma árvore. Uma árvore que alugava seus galhos para morcegos e corujas. Esses animais sinistros só encontrados em cemitérios. Havia também uma ou duas rasga-mortalha. Uma fumaça sutil, discreta, fazia acrobacias sobre a atmosfera densa das lápides. Algum humano vivo estava ali. Todos sabiam que muitos procuravam os cemitérios nas madrugadas para realizar inúmeras atividades. Rituais apocalípticos, sexo, meditação, piquenique, roubo de letreiros de bronze que decoravam os túmulos. Possivelmente, dessa vez, aquele que estava atrás da árvore estava fumando alguma erva. O vício de um fazendo inveja aos corpos mortos, que enquanto vivos expeliam pelos seus poros os inúmeros e diversos vícios típicos dos homens. Vícios conscientes e inconscientes, lícitos e ilícitos, os vícios dos fracos e dos fortes.

O sujeito atrás da árvore tinha um porte esquelético. Usava uma calça preta suja e uma camiseta vermelha sem nenhuma estampa. Possuía cabelos encaracolados e brincos nas duas orelhas. Estava fumando. Depois de consumir um de seus cigarros preparado com cuidado por ele mesmo, levantou-se e foi em direção da cova da mais nova moradora do cemitério de Nossa Senhora da Purificação. Examinou cuidadosamente a cova coberta pela lona preta. Sentou-se olhando para a coroa de flores enviada pela família. Fumou mais um pouco e decidiu retirar a lona. Quando viu o caixão soltou um riso irônico. No mínimo era um pobre que estava ali dentro. Apenas uma coroa de flores e um caixão barato. Pegou algum instrumento de ferro e começou a bater com força nos cantos do caixão. Logo fez uma fissura e com uma força mínima abriu e deu de cara com uma das mulheres mais linda que tinha visto.

Ficou por alguns segundos olhando para aquela moça que julgou ter traços tão doces e tranqüilos. Mal sabia ele que em vida, aquela mulher usava do atrevimento e da malícia para sua sobrevivência. Ela nunca dispensou uma confusão. "Eu gosto de um barraco". Desde seus quinze anos tinha aprendido que no mundo as coisas resolvem-se no grito. Nunca hesitou em chamar palavrão. Ela não chegava a ser temida pelas pessoas. Pelo contrário, era amada. Todos a amavam. Era uma pessoa prestativa. Mas não inventasse de pisar no seu calo. Muitos riam de suas maluquices. A única pessoa que não gostava dela no bairro era sua professora de catecismo. Dizem que a menina havia descoberto algum segredo de sua professora e com isso fazia chantagens. As más línguas espalhavam o boato de que a "professorinha" tinha um caso com um padre que esteve por pouco tempo na paróquia. A verdade ninguém sabe ao certo. Mas aos doze anos ela fez sua primeira comunhão. Mas nunca conseguiu decorar a salve rainha direito.

Ele achou pura e delicada a figura deitada junto das flores. Retirou flor por flor. Rasgou vagarosamente o vestido branco que ela vestia. Passou a mão sobre seus cabelos negros e lisos. Com muito esforço conseguiu virá-la de bruços. Sua bunda era volumosa e bem definida. Excitado, baixou o zíper da sua calça e pressionou seu pênis na carne fria daquela mulher desconhecida. Seus pensamentos não obedeciam a uma ordem lógica. Deu muitos personagens para aquele corpo morto. Primeiro imaginou-a professora do jardim de infância. Depois atribuiu a ela o ofício de dona de casa, que zelava pelos filhos e pelo marido. Imaginou-a de várias maneiras. Gozou.

Sobre o corpo dela e com seu pênis ainda encaixado em sua bunda, relaxou por alguns minutos. O ritmo cardíaco aos poucos foi voltando ao normal. Saiu de cima do corpo, virou-a para vê-la novamente. "Uma Santa!" Colocou-a na posição que estava, fechou o caixão e cobriu com a lona. Saiu sem muita pressa, com passos despreocupados, vagando pelos labirintos de lápides. Enquanto andava, aproveitou para fumar mais um de seus cigarros. Viu o túmulo da Ana que morreu de um acidente. Viu o túmulo do senhor Francisco José que faleceu de câncer. Parou para ler os versos inscritos no túmulo do poeta popular Manoel Caiçara. Admirou a beleza de Maria Aparecida que se suicidou aos quinze anos por motivos desconhecidos. Viu flores, velas, santos, querubins. Viu também uma grade com uma cruz imensa onde diziam que ali estava uma menina que virou cobra quando morreu. Ela havia virado cobra porque não tinha sido uma boa filha. Riu. Parou diante o túmulo com uma foto de uma criança. Ele sentiu um arrepio quando imaginou uma criança morta. Por minutos ficou olhando a foto do menino. Seu momento de contemplação foi interrompido por uma voz que veio detrás dele.

- Não esqueceu de nada, rapaz?

Assustado virou-se para ver quem estava falando.

- Lembra-se de mim?

Ele não acreditou no que viu. Ali, diante dele, estava em pé justamente a moça de feições pura e delicada. A moça morta no túmulo estava falando com ele.

- Você está morta! – ele disse em voz baixa.

- Quantos baseados você fumou? Rapaz, vamos deixando de conversa mole e passa a grana que você me deve.

- Você está morta! Você é a moça do túmulo que abri.

- Cinqüenta pelo serviço e mais vinte por me fazer perder tempo aqui com você.

- Como assim? O que é que você está falando? Que negócio é esse de cinqüenta, vinte. Eu num devo nem pra vivo, imagina pra gente morto.

- Amigo, ta pesando que dar a bunda é fácil? É o sexo mais procurado pelos meus clientes, logo é o mais caro. Cinqüenta pelo serviço e agora mais trinta por essa conversa mole. Eu tenho que trabalhar, meu bem. Vamos logo, passa essa grana rápido.

- Que serviços você me prestou? Você está morta! Não vou pagar nada a defunto.

- Veja bem, querido. As coisas funcionam assim comigo: me paga logo o que tu me deve e some, caso contrário, chamo o Elias, meu cafetão, e tu ta ferrado.

- Você está morta, querida!

- Querido, se eu estivesse morta estaria conversando aqui com você?

- Você é uma alucinação da minha cabeça, só pode ser.

- Nossa! Eu provoquei tudo isso em você. Nunca nenhum homem delirou tanto comigo assim... Ta certo que minha bunda tem algum mistério que eu desconheço. Passa a grana!

- Meu Deus! Que erva foi essa que eu fumei? To falando com gente morta!

- Ei! Não coloca o nome de Deus nas coisas, ok? É o seguinte, vou ser boazinha, me paga só os cinqüenta que tu me deve.

- Eu não lhe devo nada. Você nem humana é.

- Como assim? Ta vendo esse corpinho aqui? Essas curvinhas aqui? Esses peitos enormes aqui? Tudo isso é carne. Carne de primeira. Sou a mulher mais disputada dessa cidade. Por isso que não sou barata. Também acho um pouco salgado o que eu cobro. Mas também tem o Elias, aquele safado! Tu sabe o que aquele cafajeste faz comigo?

- Sei não senhora, nem quero ouvir.

- Ah! Mais tu vai ouvir sim. Tu num sai daqui enquanto eu falar. Pois bem, o Elias, desses cinqüenta, fica com trinta. Eu fico com o resto. Esse resto é para juntar com os outros restos dos outros clientes pra pagar as contas lá de casa, porque a casa não é minha, é do Elias.

- Vamos fazer o seguinte. Olha ao seu redor e vê onde você está.

- Claro que sei onde estou, querido. No cemitério. Pulei esses muros várias vezes. Nunca entendi porque tem gente que tem tara para transar em cima de cova. Vai entender. Mas te digo, já fiz em lugares piores. Acredita que quando eu morava na capital um cara me pagou pra gente transar no zoológico? Na frente do macaco! O macaco ficou excitadíssimo. Nossa! O cara ficou louco. Mas deu zebra...

- Era zebra ou macaco?

- Não! Deu zebra, sabe? Deu azar. O macaco começou a gritar lá e fazer barulho. Acabou que a polícia levou a gente em cana. Mas o cara era filho de bacana e num instante liberaram a gente.

- Ainda bem! Eu só quero dizer que você deve ser algo de minha cabeça. Você não é real. Pelo menos até alguns dias atrás. Você está morta, me entende?

- Escuta! Não tenho tempo para ficar aqui ouvindo conversa de viciado. Você já teve seu sexo, agora me paga por ele.

- Olha, vamos aqui comigo. Vou te mostrar teu túmulo.

- Eu num saio daqui nem morta! Paga logo senão eu grito pelo Elias.

- Então grita! Vai! Grita!

- Malandro safado! Elias! Elias! Elias!

- Pode chamar, o Elias não vem. Você está morta!

- O Elias deve ta ocupado com a Regininha. Ela é muito tapada, sabe. Todo dia ela tem que chamar ele para resolver algum pepino. Ela é bobinha, coitada. E feia também. Nossa! Com ela você pode chamar de morta. Ela é a verdadeira morta-viva.

- Olha, preciso ir. Daqui a pouco amanhece e os funcionários chegam. Vai assustar outro, porque a mim você não assusta.

- Grosso! Audácia sua falar assim comigo! A vida é difícil sabia? – ela falava soluçando – Saí de casa aos quinze anos porque peguei um bucho. Tive que dar minha filha para ela não passar fome. To nessa vida por falta de opção.

- Olha, desculpa. Não queria ofender. Como assim? Eu to consolando um defunto!

- E ainda tem mais. Não posso sair na rua que o povo me xinga! Me chama de safada, puta. É peso o que eu passo, só eu sei.

- É... a descriminação é horrível. Também passo por isso, só porque uso brinco, tatuagem e fumo.

- Imagina se descobrirem que você transa em cemitério?!

- E ainda mais com gente morta!

- Para de me chamar de morta seu indelicado! Vou embora. Seu estúpido. Não me procura mais ta me entendendo. Não me procura mais! Tu ta queimado comigo! Se aparecer, morre. Ouviu! Morre!

Ela saiu chorando entre os túmulos. Ele ficou vendo ela desaparecer. Ainda não entendia o que tinha acontecido. Era tudo muito estranho. Pensou em ir até o túmulo mais uma vez. Mas ouviu um barulho. Já estava amanhecendo. Deviam ser os funcionários do cemitério. Escorou-se ainda numa lápide e ficou fumando. Jogou o cigarro no chão, pisou-o e começou a andar em direção do muro que havia pulado para entrar no cemitério. Enquanto andava, viu as lápides de Maria Antonieta, uma senhora que morreu de morte natural. Viu Otávio, o dono da mercearia que morreu de infarte. Tancredo que morreu assassinado por bandidos. E viu por último uma lápide com uma foto de um jovem de cabelos encaracolados que aparentava ter seus vinte e cinco anos. Ele usava brinco nas duas orelhas. Não havia coroas de flores, nem velas, nem querubins. Havia apenas letras em bronze dizendo: eternas saudades. Chorou. Acendeu mais um cigarro e desapareceu por detrás das paredes do cemitério de Nossa Senhora da Purificação.


Saulo de Tasso Russo Barreto

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

VIOLETAS

O quarto estava úmido. Um vento frio e irritante circulava no ambiente. A atmosfera estava confusa, ele não sabia se orientar no tempo. A cama com lençóis brancos e travesseiros largos. A cama era grande, mas só havia ele ali. Não sabia se no restante da casa poderia encontrar alguém, por isso decidiu não gritar. Afastou o medo súbito que queria dominá-lo. Olhou para frente como se no horizonte houvesse alguma fresta de esperança, algum ponto sinalizando o caminho. Que caminho? Sabia apenas que existia, o resto eram apenas pontos flutuantes na densa memória. Viu uma janela de grandes proporções. Estava aberta. Viu violetas. Bonitas violetas, parecia que era um jardim. Um jardim bem cuidado, repleto de violetas. Resolveu observar as violetas que balançavam vagarosamente pela fraca corrente de ar. E por minutos esqueceu da única coisa que lembrava: que existia. Sua existência foi esquecida como toda sua história. A cor e o perfume das violetas o havia levado para o vazio. Por segundos visitou o vazio. Não quis procurar respostas lá, deixou que as coisas tomassem seu curso natural. Sentiu seu corpo leve. Dormente, voltou para si.
Uma coisa o intrigou, percebeu que estava nu embaixo dos lençóis. A nudez o incomodava, aumentava sua agonia. Procurou ao redor da cama se havia roupas. Não havia. Conformou-se e começou a olhar para si mesmo. Talvez desta maneira pudesse lembrar de alguma coisa. Algo o animou: a satisfação do seu corpo. Gostou dele próprio. Mas a falta de respostas e também de perguntas o fez voltar para o nada. Continuou a observar o ambiente. Do lado esquerdo da cama um criado-mudo com um livro. Estirou o braço e leu o título: Vidas Secas, Graciliano Ramos. Engraçado, era como estava sua vida: seca. Teve preguiça de começar a ler, se é que já não havia lido.
Uma idéia começou a atormentá-lo. Pensou na possibilidade de estar morto. Uma lágrima escorreu de seu rosto. O mistério da morte. Ninguém sabia o que havia depois que a vida acabasse. Acalmou-se e teve a única certeza até agora: a que estava vivo. Sentia profundamente que estava vivo. Derramou mais uma lágrima, como se estivesse feliz pela vida que pensara ter perdido. Então achou que tudo aquilo era um sonho, ou talvez um pesadelo. E resolveu tentar dormir para quando acordar tudo estivesse resolvido. Acomodou-se entre os lençóis, encostou sua cabeça no travesseiro visualizando Vidas Secas e dormiu.
Acordou. A sensação era mesma, mas desta vez com uma única diferença. Olhou para esquerda e viu o livro, olhou para frente e viu as violetas. Quando olhou para seu lado direito havia uma mulher. Uma mulher nua. Seus cabelos ruivos e longos caídos sobre ombros de pele branca, lisa e de cheiro forte. Dormia. Começou a olha-la. Surpreendeu-se com sua beleza. Seu corpo desenhado no equilíbrio de suas curvas. Não entendia. Nada fazia sentido. Quem era ela? Ou melhor, quem era ele? O que estava se passando. Percebeu que a mulher havia acordado. Olhou para os seus olhos. Não acreditou no que viu. Sentiu o doce do castanho-mel de suas pupilas. Ela abriu um sorriso enigmático. Ele também sorriu.
Um desejo louco começou a dominar sua mente. Não quis saber quem era ela, o que fazia ali. Não resolveu perguntá-la nada. Começou aproximar seus lábios do dela. Beijaram-se. Beijos demorados, recheados com a paixão e com o mistério. E os dois corpos em pouco tempo unidos transformaram-se em um só. Um prazer indescritível na dormência de suas carnes. O suor que escorria de seus corpos umedecia mais ainda o ambiente. O cheiro das violetas passava pelas suas narinas e despertava mais ainda o desejo. Depois de algum tempo ele dormiu. Antes de adormecer planejou para quando acordar perguntar todas suas dúvidas a ruiva, àquela mulher que tinha propiciado o momento mais gostoso desde que havia despertado naquele mundo louco. Adormeceu por horas...
Acordou. A sensação já não era a mesma. Havia uma alegria dentro de si. Lembrou do que tinha acontecido antes de dormir, a alegria aumentava. Olhou para o seu lado esquerdo, não havia o livro. Olhou para o direito. Não havia a ruiva. Desaparecera. Estava novamente só. Quis chorar. Engoliu as lágrimas. Onde estava a mulher? Mas havia violentas, apenas violetas...

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

RIOARÁ

RIOARÁ

Esse rio que se curva
Na nascente passará.
Espera um passsarinho
Com mil cantos pra entoar.



Triste rio que congela.
Muito sol e pouco ar.
Vê moça bonita,
Sentada, com seu vestido
Com medo do carcará.



No teu leito, pequeno rio,
Um poeta te escreve.
E passa o dia a criar:
Trovas para a moça.
Pragas pro carcará.



Rio que vomita.
Histórias que vou te contar.
Teu percurso é infinito.
Tua boca não te cala.
Mil raízes nascerá.



Esse rio que se afoga.
Que afunda em alto mar.
Vem e leva embora
A moça bonita.
E meu coração chorará.



Choro de tristeza.
Rio vou te enforcar!
Gritos e lamúrias
Da tua bocaGritará.


E sem piedade
Te jogarei abismo abaixo.
Rio podre e fétido
Tuas águas malditas
Que por mim secará.

E se é um consolo,
Na lembrança irá ficar.
A imagem daquela moça
Que não sabe
Que esse rio é verbo que não pode conjugar.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Me odeio por ter te amado.

Para quem oferto essa lágrima? Nem queria chorar. Ela é doce. A lágrima é doce. Isso eu não consigo entender. Como um produto doce nasce de ingredientes amargos? Vou ofertar essa lágrima para minha mãe. Ela merece ver os anos que passou escondendo a realidade. Não me disseram que viver dói. Pensando bem, dedico essa lágrima para meu espelho. É. Para meu espelho vai essa lágrima; essa única lágrima. Ele merece chorar junto comigo. Esse espelho mentiroso, mesquinho. És fútil espelho. És vaidoso, sujo. Tenho medo do meu espelho. Ele fica na parede, próximo do cabide em que coloco minhas roupas suadas. Suor são as lágrimas do corpo. Não! Deus, você merece essa lágrima. Sim, você mesmo! Não consigo entender essa brincadeira. Oferto essa lágrima para a cidade. A cidade e todo o seu preto, toda a sua cor fria. Seus prédios, suas buzinas, seus stresses, suas ilusões, suas ruelas, seus estrupros, suas mortes, balas perdidas, favelas, ternos, cervejas, carros... Oferto essa lágrima para o sexo. Sem ele conseguiria domar meus instintos. E o que me acontece é que não tenho controle próprio. Vivo submerso em espamos de desejos. Peço por carne e ganho ilusões. Sonho com casa e ganho motel. Tento relaxar e meus nervos gozam vontades absurdas. Meu lençol tem gosto de desesperança e cor de fraqueza. Meu travesseiro fala uma língua que não consigo entender . E o despertador chama para um mundo que mete medo. Entretanto, para quê mentir? Essa lágrima vai para você, por ter me deixado um retrato. Por ter sussurrado no meu ouvido. Por ter beijado meu pescoço, me chamado de "amor" e pelo "amor" ter me matado.
Dedicado para alguém que desconheço.